É algo com que me deparo TODOS os dias, logo pela manhã, na carneirada de trânsito que segue na direcção de Lisboa.
E escolha eu o que escolher, nunca fico satisfeita com a escolha.
É melhor encaixar-me na categoria dos tansos, ou na categoria dos chico espertos?
Não gosto de chico espertos. Os palermas que acham que sabem mais do que os outros, e que pensam que são mais importantes, ou que a pressa deles é mais urgente que a minha.
Por outro lado, irrita-me pelo menos o mesmo, o gajo (ou a gaja) que deixa passar os chico espertos.
É uma verdade universal que só há chicos espertos porque há outros tantos tansos a facilitar-lhes a vida (ou, pelo menos, a não a dificultar).
Eu não sou nem tansa, nem chica esperta. O problema é que não há uma fila de trânsito alternativa para as pessoas como eu. Se me ponho na fila dos tansos, não deixo entrar chico espertos, mas irritam-me os chico espertos que entram à frente dos tansos atrás de quem eu vou e que, coitados, por mais luzes ou apitadelas, continuam a ser verdadeiras madres teresas e a deixar entrar os chicos espertos. Nem percebem a que é que se devem os sinais de luzes (a senhora está com um problema nos faróis, já ouvi a um - e estava a ser sincero).
Ser chica esperta é fácil, mas colide com a minha maneira de pensar, e colide com o que quero ensinar ao meu filho, que vai ao meu lado no carro, no que concerne ao respeito pelos outros.
Mas é uma decisão difícil, ensino o puto a ser um tanso ou a ser um chico esperto?
Há muitas pessoas que não existem. A sério. Isto ocorreu-me há já algum tempo, no trânsito da A5 a caminho de Lisboa.
Por exemplo, eu não conheço ninguém que, em conversa com amigos diga, ah sim senhor, sempre que passo por um acidente, eu paro ou abrando para olhar e ver se há mortos ou feridos, ou para ver o estado em que ficaram os carros para depois poder pensar com os meus próprios botões "eish, o estado em que aquilo ficou, vai ser uma despesa enorme de bate chapas, espero que ninguém se tenha magoado" (e no entanto abranda um pouco mais, à procura do sangue).
Também não conheço ninguém que diga, ah, eu sou chico esperto. Quando vejo uma enorme bicha (desculpem, mas para mim é bicha, não gosto do politicamente correcto), quando vejo uma bicha, dizia o meu personagem inexistente, tento sempre encontrar forma de dar a volta ao texto, mesmo que isso passe por meter por uma escapatória e ultrapassar os outros pela direita. Ou ir na faixa rápida e mesmo em cima da saída da auto-estrada, meto-me à frente dos desgraçados que estão à espera há meia hora.
Também não conheço ninguém que se vanglorie de passar à frente na bicha do supermercado ou do cinema.
Também não conheço ninguém que se assuma como incompetente. Lido com alguns incompetentes, alguns mesmo mais próximos do que o que gostaria, mas não conheço ninguém que assuma e diga "eu sou incompetente".
Nunca ouvi uma pessoa dizer sistematicamente "ah, aquela empresa é uma merda e está cheia de incompetentes" e depois, ao primeiro vislumbre de cravar a dita empresa nalguns cobres, é a primeira da bicha (provavelmente passando à frente dos que já lá estavam).
No entanto, sei por experiência, que este tipo de pessoas existe. Cruzo-me com eles todos os dias, na estrada, na rua, na empresa onde trabalho.
Devo ser eu que tenho uns amigos muito selectos.