O meu consumo de notícias já deixou, há muito, de passar pelos jornais. É raro comprar um jornal. Não me lembro já, da última vez que comprei um jornal.
Hoje, por conta dum almoço solitário, desfolhei (é tão lindo, usar o desfolhei neste contexto, porque é o que dá, na verdade, vontade de fazer), o Público e o Diário de Notícias.
Uma das "notícias" do Diário de Notícias (sem link, não merecem) surpreendeu-me: "Evangeline Lily - Actriz de 'Lost' quer dar à luz em casa".
Fonix....a mulher pariu há tão pouco tempo e já está prenha outra vez. Isto é que é produção.
Mas depois lembrei-me de que a actriz integrou o elenco do novo filme de Peter Jackson, The Hobbit, e as duas coisas não são compatíveis.
Chegada ao meu local de trabalho, fui à procura.
Senhores do Diário, a vossa notícia está atrasada quase 6 meses (por 10 dias chegavam ao semestre). Forneço-vos, de borla, um link para o grande guru da informação deste tipo, que qualquer jornalista olha de soslaio, com arrogância e superioridade, o Perez Hilton. Este não anda por aí com peneiras de grande jornalista (anda com outras, mas isso agora não interessa nada para o caso).
Se não conseguem, sequer, estar informados sobre coisas básicas, o que é que me garante que o consigam fazer com coisas realmente importantes?

P.S.: Já para não falar do "dar à luz", que é um termo que me encanita, juntamente com o esposo/a e o falece.
O Correio da Manhã tem neste momento disponível na sua página de entrada um título e um vídeo. O título "Engenheiro mata com neta ao colo".
Um vídeo e uma foto acompanham a "notícia".
Nada contra, até aqui, no vídeo até avisam que as imagens podem ofender susceptibilidades mais susceptíveis (eu sei, é de propósito).
A questão é que a notícia é só isso.
Ficam por responder aquelas que eu acho que são as perguntas a que qualquer notícia deve responder. Não sei, presumo que as ensinem nos cursos de jornalismo. O onde, o quando, o como, o quem, o porquê. Sabem, aquelas coisas que constituem a notícia propriamente dita.
Se eu quiser ver um gajo a matar outro, vou ao cinema, e fico mais bem servida, as pistolas fazem um barulho de jeito, o morto cai dramaticamente e está vestido de branco, para se ver o sangue, há diálogos bem construídos, enfim, o que se quiser.
Aqui, não percebo, sinceramente, o que é que aquele vídeo lá está a fazer.
UPDATE: Explicam-me no Twitter, o user do Correio da Manhã @cmjornal, que se trata duma secção que diz "Exclusivos em papel" (e diz). O jornal, em papel, era uma coisa que o meu avô comprava. Esta geração não compra em papel, ou, vá, está a deixar de comprar. Eu, que nem sequer sou da geração web (sou mais velha), resolvi o tema doutra forma. Mas não comprei papel.
Acompanho o mais longe possível, tanto quanto me permite o meu dia-a-dia, os casos relacionados com crianças.
Não que não me preocupe, pelo contrário, mas porque tenho de me preservar, e acho muitíssimo cínica esta avidez de desgraça.
Excluindo os que estão directamente relacionados com as coisas, todos os outros, que falam no café sobre as Joanas, as Maddies, as Esmeraldas e as Alexandras, apenas seguem esses casos para terem a sua dose diária de escândalo e de miséria. São abutres sentimentais. Precisam de olhar para a desgraça alheia para sentirem que, afinal de contas, não estão assim tão mal.
E os órgãos de comunicação social, na generalidade, exploram este vício até ao tutano. Afinal de contas, sempre é mais barato comprar um pasquim ou ligar a televisão do que uma dose de heroína ou cocaína (presumo).
A alternativa são as novelas, mas eu acho que as pessoas já não distinguem a realidade da ficção. As novelas e os telejornais são seguidinhos no alinhamento, confunde-se tudo, o tom cada vez menos noticioso e cada vez mais de entretenimento com que nos servem as notícias funciona como uma espécie de aperitivo para a novela que vem a seguir. E as pessoas falam com a mesma normalidade e nas mesmas circunstâncias da criança que foi assassinada e do personagem da novela que foi abusada sexualmente. É um encadeamento. Ficção, realidade, não há distinção, nem é importante que haja......é tudo lá longe, e tudo serve para validar a monotonia da vidinha real.
As pessoas gostam de desgraças. Principalmente alheias, mas as própria também. Adoram falar das suas doenças, dos seus problemas, dos seus dramas, adoram receber o olhar de comiseração dos seus interlocutores.
E a mim cansa-me, confesso, esta pequenez de espírito.
Esta coisa dos new media e dos old media dá uma trabalheira a quem consome a informação.
Parece que andamos a ver a vida a 2 velocidades. A velocidade típica dos dias de hoje, e a velocidade a que os órgãos de comunicação social tradicionais andam que é, invariavelmente, mais lenta.
Vem isto a propósito duma notícia num jornal de pseudo referência em que noticiam que no Britain's got Talent já há um concorrente à altura da mediática Susan Boyle. E referem um concorrente do episódio da semana passada (ou mesmo da anterior), o Greg. (Vídeo)
Nos dias que correm, as notícias correm depressa e, mais, o consumidor final tem a capacidade de validar a informação. Portanto, colocar num jornal online uma pseudo notícia da semana passada, que já está desactualizada, apenas serve para desacreditar e descredibilizar o jornal em causa. No meu caso, não faz muita mossa, porque pela parte que me toca já não tinham qualquer crédito, mas apeteceu-me.
Assim, e caso o jornalista passe por aqui, deixo-lhe os vídeos da notícia da semana que vem, sobre os sucessos do último episódio do Britain's got talent. Foi no fim-de-semana passado e são duas criancinhas. Uma canta outra dança.
E já agora, apesar de em Portugal o American Idol ainda estar no princípio dos princípios, talvez seja bom saberem que os finalistas estão eleitos, e que é hoje, quarta-feira, que se sabe quem é o vencedor. Só para não fazerem notícias daqui a uma semana, a dizer quem é que está no Top 10.
Vivemos em tempos mais rápidos do que aqueles a que vocês estão habituados. Se nos querem fidelizar, enquanto consumidores de notícias, têm de ser relevantes. Despachem-se porra.
Umas combinam entregas personalizadas de Hamburguers via Twitter, outros vão ainda mais além:
Vídeo via 5 dias
Como é que a imprensa (e os media em geral, mas mais a imprensa) consegue concorrer com isto?
Um avião caiu no rio Hudson. As primeiras fotos da ocorrência foram publicadas no Flickr e demais plataformas públicas de publicação de fotos. Minutos depois da coisa acontecer.