A língua a que me refiro, é aquela que falamos portanto, os que vieram aqui à procura doutras línguas e da sua indubitável importância, desenganem-se desde já. Hoje, falo doutras línguas, mais exactamente da nossa, a que partilhamos com mais uma catrefada de gente, e muito bem.
Tenho andado à procura de informação sobre um determinado tema. Uma questão que tem a ver com medicina. Uma terapia. Recomendaram-me que aprofundasse o meu conhecimento sobre esta cena, e eu sou muito bem mandada.
Encontro tudo o que quero. Muita, muita informação. Mas tudo em português do Brasil. Não me entendam mal, o português do Brasil é tão bom como o português de Portugal, não tenho cá dessas frescuras de achar que o "nosso" é melhor que o "deles". Mas é diferente. Para mim, o português do Brasil tem aquele ritmo meio cantado, um certo meneio, um ritmo nas ancas que vibra na voz do Chico, ou na letra do Jorge Amado. Adoro.
Mas, confesso que o ritmo não é o mesmo quando se trata de informação técnica. Estou a ler, imaginemos, a descrição duma terapia, em português do Brasil, e aquela terapia começa a soar-me meio tropical (o que, de certa forma, anima logo), é saborosa. Por outro lado, carece de veracidade. Vão-me desculpar. Racionalmente sei que não é assim. Mas enquanto leio as coisas lá do cognitivo e do raio que os parta, em português do Brasil, parte do meu cérebro, não consegue levar aquilo a sério.
O que é pena, porque há muito mais conteúdos de jeito em português do Brasil do que em português de Portugal. Pelo menos sobre este tema.
Por causa do vídeo que anda nas bocas do mundo, lembrei-me de vários professores de língua portuguesa que tive ao longo dos tempos. Bons e maus.
No 7º ano do ciclo a professora recomendou a leitura do Kurika, a história de um leão, na altura gostei imenso, mas já não me lembro da história. A recomendação da leitura chegou com um aviso. Não leiam da página tantas à página tantas. Parece que era a parte em que o leão descobre o sexo. Obviamente toda a gente foi ler essa parte em primeiro lugar.
No 9º ano, para os Lusíadas, leiam, mas saltem o 5º canto. Odiei os Lusíadas, e não li a maior parte, mas o 5º canto marchou todo, em primeiro lugar (já não me lembro de nada, mas sei que foi assim).
No 10º ano, a mesma coisa, com Os Maias, lembro-me que havia umas secções que era suposto não lermos. Li tudo, e adorei (ao contrário do resto da turma, que achou uma seca). Já nem me lembro o que é que era suposto não lermos.
Eu era muito boa aluna e, por isso, tinha maior atitude por parte dos professores, pelo que me lembro de ter perguntado (em todas as circunstâncias) porque é que não podíamos ler aquelas partes (o que fazia de mim a heroína da turma, do ponto de vista dos meus colegas). Se não eram só palavras? E se a disciplina não era Língua Portuguesa, e se na disciplina em causa não era suposto aprendermos palavras, e se havia palavras de primeira e palavras de segunda. De todas as vezes a resposta foi a mesma: mais tarde compreenderás (penso que é desde aí que embirro solenemente com essa justificação adiada, com base numa hipotética maturidade futura).
Com o professor que me deu Gil Vicente, a história foi diferente. Lia tudo, quando não nos dizia para sermos nós a ler, alto, durante as aulas e explicava-nos as coisas. Não há que ter medo das palavras. Há palavras que não usamos no dia a dia, mas não é por isso que deixam de existir e podem ser úteis, em certos contextos.
Era meio esquisito, este professor, e tinha uma panca mal explicada pela Florbela Espanca, mas perdoávamos-lhe a panca (e as secas que nos dava com a dissecação exaustiva dos poemas da Florbela), porque, de todos, era o que nos compreendia melhor, e não tinha medo das palavras.
Não percebo porque é que, ainda hoje, alguns professores não perceberam duas coisas:
1 - As palavras devem ser usadas, todas.
2 - Dizer a um aluno para não fazer algo, é meio caminho andado para que este o faça, rapidamente, e antes de fazer qualquer outra coisa.
Irrita-me a ignorância, bom irrita-me muita coisa, mas ignorância é uma delas. Não é a ignorância de quem ainda não aprendeu, é a ignorância de quem tem funções de responsabliidade e deveria já ter aprendido.
Caros senhores jornalistas, os Jogos Olímpicos não foram em Beijing, foram em Pequim, que é como em português se diz Beijing.
E já agora, os atentados da Índia, foram (estão a ser) em Bombaim, e não em Mumbai.
New York é Nova Iorque, e Mozambique é Moçambique. Brasil escreve-se com s e não com z.
Aprendam a falar português (e a escrever, já agora), antes de pegarem no microfone ou no teclado, e começarem, com o ar de entidade superior, a (des)informar a malta.
Ao menos finjam que não vão copiar as vossas peças à CNN, e ao New York Times.
Caburros.
Há sensivelmente um ano, sobre a Shift, escrevi aqui um post, e o Pecus até teve a amabilidade de me deixar por lá um comentário, sobre o qual mais tarde, em conversa, concordámos em discordar.
Tenho andado à espera que saia a versão em Língua Portuguesa do site, língua que é a da maioria dos participantes, presumo, língua que é a da maioria dos organizadores, presumo, língua que é a da maioria dos patrocinadores, presumo, língua que é a do País onde a conferência está a ser organizada, língua que é, presumo, a da maioria do target a que se destina a conferência.
Tenho estado à espera, mas ainda bem que tenho estado sentada, porque não há meio. A conferência começa depois de amanhã, e até agora, nada. Até as mensagens de erro são em inglês.
É tão boçal. É tão pequenino. É tão complexado.
